quarta-feira, novembro 02, 2005

Respondendo ao teu desafio, aqui fica Amigão

Um dia desafiaram-me a escrever um conto. Aceitei o desafio, peguei num papel e numa caneta, sentei-me numa mesa de café e comecei.

O resultado foi um conto triste. Não vivem felizes para sempre como nos contos infantis. E também não é um conto infantil, antes pelo contrário.

Apesar de ser um pouco diferente do que aqui normalmente escrevo, vou partilhar com vocês.


Encontravam-se sempre no mesmo sítio, à mesma hora. Encontravam-se no exacto lugar em que se conheceram. Esse lugar pertencia a outro Mundo, a um mundo onde só eles podiam entrar. Não era preciso chave, nem códigos de acesso. A porta abria-se com a auria de um Nós que era ele e ela.

Aquele dia não foi diferente aos outros dias todos de meses e anos passados.

À hora certa ela sentou-se, naquele lugar azul, com cheiro a brisa marinha e paladar a sol de inicio de Inverno. Estendeu a manta xadrez e sentou-se.

Ele chegou segundos depois e sentou-se também.

Tagarelavam sobre tudo e sobre nada como costume. Mas naquele dia algo foi diferente. No meio de conversas de paixões, emoções, ilusões, desilusões, surgem acusações, provocações e mutilações.

As palavras com gosto àquele Amor profundo que só dois seres iguais entre si sentem, estavam azedas. Como se o ranço do odio, do ciúme, do rancor tivessem tomado posse da razão apaixonada dele.

Ela tentou trazê-lo de volta a si. Implorou que ele parasse. Que ao menos continuassem a conversa no dia seguinte. Ele respondeu que ela não gostava que nenhuma discussão ficasse para o dia seguinte, para não crescer na noite mal dormida.

Ele espingardou, disparou, esfaqueou, metralhou...

Ela permanecia imóvel e hirta, sentada sobre a manta xadrez como um prisioneiro perante um pelotão de fuzilamento sem venda nos olhos. De olhos bem abertos e tristes, ela permanecia imóvel e hirta sentada sobre a manta xadrez.

Ele espingardava, disparava, esfaqueava e metralhava. Cego de ciúme, de raíva não se sabe bem de quê.

Ela enquanto permancia sentada naquela manta xadrez que só tinha partilhado com ele, a sua alma tombava sobre a lama sanguenta.

O cheiro não era mais a brisa marinha, nem o paladar de sol de inicio de Inverno. Cheirava a pólvora e sabia a sangue temperado de paixão.

Ela levantou-se, enquando o resto de si permanecia à espera de socorro que não viria. Nem a morte viria. Nada viria.

Ela levantou-se saiu do lugar azul e foi tomar banho. Retirar da pele o esterco do dia.

Ele poisou as armas e viu o resto dela imóvel e inconsciente no chão.


Foi ele o seu socorro num acto desesperado de arrependimento. Pegou-a nos braços e levou-a à fonte de água pura que ali corria.

Enquanto ela tomava banho para arrancar de si o fedor que existia apenas na sua memória, ele despia a sua camisa branca - aquela cor que ele escolhia sempre que estava com ela, porque era a cor que ela gostava mais - e da camisa fazia pequenas tiras com que limpava cada uma das feridas que ele mesmo provocara.

Ela nunca mais se sentou na manta xadrez. Ele continua a velar pelo resto de ela, que ainda hoje continua inerte e não morto. Continua a velar enquanto chora, enquanto espera que algo acabe ou milagrosamente recomece. Mas nada renasce, nem nada morre.

Por vezes ela diz-lhe de longe, com o resto do amor que lhe sobreviveu:

"Não chores. Foste tu que a mataste."

Posted by Marília Pamies - Cake Designer at 1:55 da manhã

10 Comments

  1. Blogger Icaro posted at novembro 02, 2005 12:36 da tarde  
    Aqui vai uma sugestão para um epílogo do teu conto :
    "E ele continuou a ir ao lugar azul, com cheiro a brisa marinha e paladar a sol de inicio de Inverno esperando sempre, dia após dia, reencontrar aquela manta de xadrez a agasalha-la novamente.
    Esperando que um dia possa explicar a si proprio para depois lhe explicar a ela o porquê de tudo aquilo...desejando (mais do que esperando) que pudessem retomar as conversas sobre tudo e sobre nada sem dores."
  2. Blogger badger posted at novembro 02, 2005 3:34 da tarde  
    Belo....

    muito interessante...


    Como podes ver, não fui! Foi um mal etendido... e estou de volta à tua «Colmeia»!!!
  3. Blogger Caracolinha posted at novembro 02, 2005 4:06 da tarde  
    Adorei o teu texto lindinha ... e adorei a tua nova colmeia !!!!

    Beijinho ;)
  4. Blogger CP posted at novembro 02, 2005 7:07 da tarde  
    Pois eu gostei muito.
    Pareces já muito experiente nessas andanças. Pois não pares.
  5. Blogger Mocho Falante posted at novembro 03, 2005 8:47 da tarde  
    Então fica aqui uma proposta para um novo conto...desta feliz pode ser?

    Beijocas
  6. Blogger Buddha Breezer posted at novembro 04, 2005 12:39 da manhã  
    é um texto de uma enorme tristeza, contida até...

    fico a pensar se a folha de papel depois de escrita não te aliviou mais a alma

    Bem Haja...sempre a sorrir
  7. Blogger rspiff posted at novembro 04, 2005 12:41 da tarde  
    Eu só escrevo contos, ou textos, não sei como lhes hei-de chamar...e são muitas vezes melancólicos...dizem os outros...

    E são? Sei lá...não tenho aqui espaço para me explicar...para responder à minha própria pergunta :-)
  8. Blogger badger posted at novembro 04, 2005 11:57 da tarde  
    Não tendo nada a ver com o tema...... MAs Bom Fim de Semana
  9. Blogger Agripina Roxo posted at novembro 05, 2005 2:57 da manhã  
    tem tanto de triste como de bonito :(
    precisa de ser saboreado, não e facil
    mas parece-me um desafio bem conseguido, um desafio a ser repetido :)
    beijinhos grandes para a abelhinha mais simpatica que por aqui voa e para a sua linda Inês *
  10. Blogger Nina posted at novembro 06, 2005 11:10 da manhã  
    Parabéns pelo texto :)

    Beijinho e Bom Domingo :)

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