terça-feira, abril 24, 2007

41

Hoje ao pequeno-almoço contamos histórias das nossas vidas. Não sei bem como é que surgiu, mas a que contei foi esta.

Estávamos no dia 29 de Maio de 2004.

Era um dia quente e o Parque da Belavista estava ao rubro, transformado na cidade do rock, no primeiro Rock in Rio Lisboa.

Cabeças de Cartaz Ben Harper e Peter Gabriel.

Pouco antes das 18h lá estávamos nós, a lutar pela fila da frente, quais adolescentes cheias de energia, eu, a minha cunhada e a Céu. Entre nós e o palco, uma fila de seguranças daqueles altos e entroncados, tipo GOE, vestidos de preto e de óculos escuros.

Claro, 3 gajas bem dispostas a fim de se divertirem com aqueles Adónis todos à frente só podia dar em muita observação anatómica daqueles bíceps visíveis quando terminava a manga curta da t-shirt preta.

Estava super bem disposta, risonha, feliz pela primeira vez em algum tempo. A noite começava a cair e o frio a chegar.

À minha frente o 41. Também ele estava com frio. Vi-o a esfregar discretamente os braços. Dei uma cotovelada à Céu e disse-lhe apontando para o 41:

- Olha o bonzão está com frio.

Ele viu-me. Estava a olhar para mim por trás dos óculos escuros. Sorri para ele e ele retribuiu. Ele ficou desconcertado. Olhávamos um para o outro e riamos. Pouco depois ele pediu a um colega para o substituir e saiu do posto por uns momentos. Regressou já de camisola de manga comprida para grande tristeza minha.

Quando acabou o concerto do Ben achamos que queríamos ir para casa. Ao afastar-me da grade, acenei e ele retribuiu discretamente.

Dia 6 de Junho lá estava eu novamente. Desta vez cabeça de cartaz Sting.

Não conseguimos chegar à frente nas estávamos ao pé do corredor da régie.

O 41 no seu posto do fim de semana anterior. Quando consegui disse-lhe Adeus e ele sorriu. Pouco depois tinha mudado de posto e estava mesmo ao pé de nós.

Ao final de 8 horas em pé, sem nos conseguirmos mexer, estávamos a começar a ficar preocupadas como é que íamos sair do recinto. Havia pelo menos 100 mil pessoas atrás de nós. Não ia ser nada fácil.

Céu, mulher destemida e desenrascada, não se acanha:

- Dizemos que nos estamos a sentir mal e saímos pelo corredor.

Se bem o disse melhor o fez. 2 músicas antes que o Sting terminasse o reportório a Céu chama o segurança mais próximo e diz:

- Não me estou a sentir bem e tenho estas amigas comigo.

- Quantas são?

- 4

- Temos aqui 4. – diz o segurança aos colegas.

Quando dou por mim tenho o 41 a dizer-me:

- Põe aqui a mão no meu ombro.

Obedeci. Como costumo dizer uma mulher virtuosa é sempre obediente (ihihihihih).

Ele levantou-me como se eu fosse uma pluma e colocou-me no chão. Dou por mim a andar aos "ss" a poucos metros do Sting. Mais uma vez me senti adolescente naquela emoção.

O 41 aproxima-se de mim e diz-me:

- Não estás em condições de andar, eu levo-te até ali.

Pega em mim ao colo e leva-me nos seus braços fortes até um lugar onde me posso sentar.

Naquela emoção de estar ao colo de um cavaleiro andante, esqueci-me de lhe perguntar o nome, o telefone, o e-mail, qualquer coisa que fosse e hoje em mim, viva como se tivesse sido ontem, habita a recordação feliz de ter estado nos braços do 41.

Posted by Marília Pamies - Cake Designer at 5:58 da tarde