segunda-feira, janeiro 08, 2007

O meu fim de semana (quase) dava um thriller

Por vezes digo que a minha vida dava um filme. Este fim de semana a minha vida dava, nem sei o que dava.

Eu, o Carlos, o Madeira e o Morto-vivo fomos fazer uma caminhada à Serra da Estrela, que se iniciou na Loriga e terminou quase na Torre.

Chegamos à Pousada da Juventude às 18h30, mesmo na hora combinada.

Ficamos todos juntos numa camarata. Confesso que ficar numa camarata com o Morto-vivo não me deixava muito confortável. Ele até deve ser bom rapaz mas, cada vez que olho para ele, lembro-me daquela personagem de Ralph Fiennes no Red Dragon (o que eu tive que pesquisar para saber esta informação)... um rapaz tímido, anti-social que nas horas vagas matava pessoas.

Para solidificar a minha opinião o Morto-vivo ao ver a picareta de gelo do Carlos diz com ar sereno:

- Isto usa-se para matar pessoas, principalmente a mulheres.

Saí do quarto com um pretexto e pensei com os meus botões:

- É melhor deixar algo escrito sobre isto.

O Jorge seguiu-me e disse:

- Olha ele sabe como se mata. És capaz de ter razão - e riu-se.

- Ainda por cima a vítima sou eu... sou a única mulher.

Lá fora o nevoeiro adensava-se e eu senti-me num livro de Stephen King.

Fomos jantar. Não havia mais ninguém no restaurante.

O empregado atende-nos de uma forma excessivamente subserviente, repetindo vezes sem conta as expressões como "a gosto" e "Nossa Senhora dos Caminhos de Ferro". Contou-nos a história da sua vida, que trabalha em Lisboa, que é o "faz casas" e que se sente uma bola de ping pong mas que, o o patrão dele é o que "paga mais". Convida-nos a visitá-lo no restaurante onde trabalha "Chamem o Isento, de isenção."

A nossa refeição foi interrompida uma série de vezes com o pedido para cantarmos os parabéns ao patrãozinho dele, que é uma grande honra os clientes cantarem-lhe os parabéns.

A refeição é rematada com um fantástico ponto final:

- Se os senhores vão daqui com fome, juro que vos vou bater!

Mau! Um ameaça que me mata, outro que me bate!

Ao deitar-me não conseguia deixar de rir ao reviver todo o dia, embora o fizesse o mais baixo possível para não incomodar o resto das tropas.

A manhã seguinte começou bem cedo, ainda nem o sol tinha acabado de nascer.

Enquanto via a aurora a despertar o sol emoldurada por nevoeiro, o Morto-vivo aproxima-se de mim e pergunta-me:

- Viste o video da execução do Saddam Hussein sem censuras?

- Não.

- Está no Youtube. Foi engraçado. Via-se o corpo dele assim e a cabeça dele assim. É que ele partiu o pescoço - descrevia-me ele gesticulando para ilustrar o que viu.

Pensei que este fascínio pela morte não poderia ser normal.

- Deves ter tido sonhos muito agradáveis. (pausa) Riste muito durante a noite. (pausa) É bom rir assim. (pausa) Foi contagiante. (pausa) Também ri muito.

O nevoeiro era muito, mas decidimos começar o passeio assim mesmo.

O Morto-vivo, quando está na fase vivo é um chato...

Foi o caminho todo a dar-me lições de geologia. Apesar de achar o conhecimento algo fundamental, há coisas em que o conhecimento se torna desmistificador. A natureza tem, para mim, a beleza de eu não saber como tudo acontece, um lado mítico e dogmático. A natureza está bem assim... uma pedra é uma pedra, não um sedimento...

Após 1h nisto, resolvi cometer a indelicadeza de colocar os auscultadores num dos ouvidos, em sinal de afastamento, mas ele insistia...

Faltava um terço do caminho e deixei de ver o Carlos e o Jorge no nevoeiro cerrado. Apenas via o Morto-vivo.

Enquanto no meu ouvido esquerdo o Rodrigo Leão me dava algum bem estar, a situação punha-me os cabelos em pé:

- Estou feita! Não vejo ninguém além do assassino. Vou-me perder na serra com este tipo. Há mais 150 sujeitos naquela empresa e logo havia de ser com este. Vou-me perder e morrer. Ele vai-me matar.

De um momento para o outro também deixei de o ver. Nisto ele sai num pulo detrás do arbustoe diz:

- Olha vem aqui ver isto. É bem giro.

Pensei:

- Vai mostrar-me a minha sepultura. Minha filha amo-te muito! A mamã vai jazer aqui... no meio da serra numa tarde de nevoeiro!

- Olha... a água está gelada! - pega nhuma pedrinha e atira-a à água - O gelo está grosso. Nem o consigo partir.

Eu é que me parti de medo. Tinha que sair dali depressa e fiz-me ao caminho.

A determinada altura ele diz-me:

- Não é por aí, é por aqui.

- Tens a certeza? Pergunto eu completamente perdida - o melhor é apitar pelo Carlos.

- Não é preciso. É por aqui.

Comecei a rezar e segui-o como um condenado perante o pelotão de fuzilamento.

- E estrada é já ali.

Ao fundo 2 vultos escondidos na cortina. Eram mesmo o Carlos e o Madeira.

O alívio fez-me sentir o gelo da tarde trazido pelo vento, a húmidade das calças que se colavam às pernas.

Cheguei sã e salva...

Aprendi que corajoso não é aquele que não sente medo, mas aquele que viaja com ele até ao fim sem deixar cair uma lágrima.

Posted by Marília Pamies - Cake Designer at 11:28 da tarde

1 Comments

  1. Blogger Ahraht posted at janeiro 19, 2007 12:26 da manhã  
    Que aventura. Só mesmo tu para te acontecer uma coisa como esta. O morto-vivo tem mesmo ar the chuckie.

    Fartei-me de rir.

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