quinta-feira, março 30, 2006

93 anos não perdoam

Uma vez disse aqui que falaria do que passei no hospital, quando sentisse que havia chegado a hora.

Hoje ao ler este post lembrei-me de um episódio que vivi enquanto esperava pela operação nas urgências.

As macas amontoavam-se ao lado umas das outras em filas de 4 ou 5.

A minha tinha passado a noite no corredor da UCI, um lugar mais próximo da morte, mas mais tranquilo e sem luzes a bater nos olhos e sem os gemidos dos velhos abandonados em véspera de Natal como ruído de fundo.

Pelas 7h30, a hora do despertar no hospital, sou devolvida à confusão das urgencias. Após uma noite mal dormida a olhar para o relógio em cima da minha maca, o cenário ainda é mais desolador.

Era a única pessoa, não acidentada, com menos de 60 anos.

Largaram-me no monte de macas. As macas iam rodando, ao ritmo da vida hospitalar, o que quebrava a monotinia dos minutos que tardavam a passar. Um a um, os pacientes iam sendo levados para o banho. O monte das macas ia-se mutando em si mesmo sem deixar nunca de ser um monte.

Ao meu lado o Senhor António. Queixava-se de dores nos pés e acordou a implorar gelo. Tinha 93 anos. Ao despertar ficou atorndoado com as mudanças que ocorrerram à sua volta. Não reconhecia o monte onde se encontrava.

Olhou para mim assustado. Sorri e disse um simples bom dia.

Respondeu e começou a falar.

- Doiem-me os pés. Queria gelo. Não me dão gelo. Dizem que está frio. Mas são elas que vão sentir o frio? Não, sou eu! Porque é que não me dão gelo?

- Se calhar o médico não deixa.

- Água! Poderei beber água? Estou tão mal disposto. Senhor, senhor - chamava pelo enfermeiro - estou mal disposto.

- Vou buscar um saco para se tiver vontade de vomitar.

Durante os minutos seguintes o Senhor António, descreveu-me a sua casa, a sua família que não sabe que ele está no hospital, a sua terra, as suas couves e as suas batatas.

Ouvi, mesmo sem a paciência que a minha dor física me roubava lentamente. Afinal, estava ali também porque não ouvir o Senhor António?

Quando finalmente trouxeram o saco, o Senhor António pediu para se voltar para o lado. Estava cansado, os 93 anos não perdoam.

Levaram-me para o banho e dali novamente para o corredor próximo da morte. Não vi mais naquele dia o Senhor António.

A última vez que fui ao hospital à consulta onde o médico me daria alta, passou por mim no corredor uma maca. Era o Senhor António, que ainda andava por lá, um mês e meio depois.

Posted by Marília Pamies - Cake Designer at 6:12 da tarde

1 Comments

  1. Blogger SaltaPocinhas posted at março 30, 2006 11:53 da tarde  
    O meu pai passou agora 15 dias num hospital (nos HUC)na cardiologia.
    Fui lá quase todos os dias e NUNCA VI macas em corredores nem doentes abandonados nem caras feias do pessoal. Porque não são assim todos os hospitais? Porque será que uns podem e outros não?

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