sábado, maio 19, 2007

Perdidos e achados

Acabei de ver na SIC uma reportagem sobre um casal de toxidependentes, ela seropositiva e ele com hepatite C que se queixava da falta de apoio do Estado para viverem em condições humanas.

Até aqui tudo bem. Todos merecemos viver com dignidade, mas às páginas tantas o sujeito diz assim (ou algo parecido, posso não ter decorado tudo):

- Andei com as ferramentas no carrinho, mas sabe eu tenho fraqueza. Sabe? Fraqueza. Anemia. Fraqueza.

Um pouco depois conta que tem que se "apresentar na Segurança Social para fazer um curso , que nem sei qual é", e acrescenta "espero que ão seja nada fisicamente pesado, porque para isso ia para as obras."

Ela tem um discurso semelhante.

- O que eu mais gostava era e ter os meus [5] filhos comigo. Mas a segurança social em vez de me ajudar cá em casa tirou-me os filhos.

Nesta fase da história será relevante dizer o que se vê naquela casa. A roupa está amontoada, a loiça por lavar, um monte de estreco. Será que a ajuda que ela queria era uma governanta? Ela justifica.

- Eu não posso trabalhar porque não tenho o 9º ano. Sem 9º ano não se pode fazer nada. Nem sequer varrer a rua. Se não posso varrer a rua também não posso varrer a minha casa.

Ela tem a minha idade e ele é ligeiramente mais velho. Gastam os parcos cento e poucos euros do subsídio de reinserção social em tabaco, alcool e adivinhem lá em mais o quê.... no telemóvel.

A Paula Bobone certo dia, há muitos anos atrás disse: "Falte-lhes o que faltar, falte-lhes o pão para a boca, mas não lhes falte a educação." Neste caso parace-me que poderiamos dizer: "Falte-lhes o que faltar, falte-lhes o pão para a boca, mas não lhes falte o telemóvel". (Já nem falo do tabaco...)

A sério que não suporto este tipo de coisas.

A minha mãe professora de profissão, durante o ínicio da sua carreira andou por muitas escolas onde havia muitas crianças filhas de pais miseráveis. eu também frequêntei essas escolas e lembro-me de ir a casas de meninos que eram verdadeiras barracas a cair de podres... e uma coisa aprendi... miséria não é sinónimo de badalhoquice, de preguiça.

Uma das minhas amiguinhas só tinha duas ou três mudas de roupa e aquela mãe tinha sempre a preocupação da menina estar sempre impecável e apresentável. Nunca faltava à escola mesmo que nem sempre pudesse levar almoço. Lembro-me de partilhar o meu com ela.

A casa dela tinha chão de cimento e cheirava a humidade, mas os poucos móveis que tinha não tinham pitada de pó, a banca da cozinha estava sempre arrumada e as camas sempre feitas.

Um da a menina sentiu-se mal e a minha mãe foi levá-la a casa. A mãe dela pediu desculpa por não ter colocado as colchas para receber visitas em cima das camas.

Ainda me lembro da senhora como se a tivesse conhecido ontem. Achei que ela era uma super mulher e que deveria sempre ser lembrada.

Posted by Marília Pamies - Cake Designer at 9:13 da tarde

3 Comments

  1. Anonymous Formiguinha posted at maio 19, 2007 9:53 da tarde  
    Com um ordenado melhor ou pior, só não trabalha quem não quer (ou quem REALMENTE não pode). Mas é claro que é mais fácil esperar que o Estado lhes dê dinheiro. Trabalhar cansa, sabes?

    Bjinhos***
  2. Blogger Cristina posted at maio 22, 2007 12:35 da manhã  
    Abelhinha,

    Aqui existe tanto disso, é incrivel, mas é verdade!

    Vem lá ao meu cantinho, tenho uma frase para decifrares
    :)
    Um beijinhu
  3. Anonymous Anónimo posted at maio 23, 2007 2:36 da tarde  
    Deixa-os ter telemóvel. Dá emprego ao pessoal das telecomunicações.

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