quinta-feira, julho 14, 2005

Coisas...

Hoje a Inês ficou à tarde com o pai.

Apesar de eu estar de férias as saudades dela por ele eram tantas que optei por abdicar de uma tarde com ela para eles estarem os dois.

Para ocupar o vazio que já conhecem que fica quando ela não está, fui almoçar com um pequeno grupo de pessoas que me são muito especiais. São meus colegas de trabalho, mas a eles devo um bem estar imenso naquele mundo louco.

Estava com bastantes saudades deles. Não como colegas, mas como as pessoas que são. E eles são os meus Rançosos!

Depois do almoço, fui fazer umas comprinhas ao Ikea para complementar as remodelações que estou a fazer no quarto da Inês. E aconteceu algo que me deixou... nem sei que palavra usar para descrever o que senti.

Uma senhora aproximou-se de mim no parque de estacionamento e desejou-me uma boa tarde. Até aqui tudo poderia estar bem se eu não tivesse medo de estar em parques de estacionamento e não tivesse levado um valente susto.

Apesar de lavada, olhando para ela viamos rastos de drogas nos seus olhos, dentes e pelo seu corpo seco com a postura encolhida que já conhecemos a quem pede uma ajuda para comprar uma sopa. E foi isso mesmo que ela pediu, uma sopa.

Pedir uma sopa num parque de estacionamento é o mesmo que pedir uma sandes junto a uma caixa de multibanco (há uma figura na Baixa de Lisboa que faz isso). Não há sopa, não há sandes, há apenas a nossa boa fé e o nosso dinheiro.

"Dê-me uma sopinha! Tenho um filho de 2 aninhos deficiente, faz anos hoje e eu não tenho o que lhe dar de comer"

Engoli em seco. Tudo o que tem a ver com crianças a passar fome me incomoda, embora enquanto ouvia ia pensando: "Queres dinheiro para droga não é?", entretanto chegou a melhor parte do discurso da dita senhora.

"Se a senhora me desse 5€ (CINCO euros) ajudava-me tanto! É que se não levo para a pensão onde durmo ela não me deixa entrar e depois fico sem ter o que dar de comer ao meu filho e deixo de ter sítio para ele dormir! Preciso de 15€ e já tenho 10€... está aqui para a senhora ver e ver que eu não estou a mentir!"

Eu nem queria acreditar... respondi-lhe que não tinha nada trocado. Diz ela muito rapidamente: "não faz mal que eu troco!"

Se já estava incrédula, mais ainda fiquei.

Passamos de "se me der umas moedinhas" para "se me der 5€"!

Olhei para ela, 30 anos, 35 anos no máximo! Lembrei-me de um post no blog da minha querida Caracolinha sobre subsidiodependentes, e pensei: "estudei que me fartei, paguei grande parte dos meus estudos, sacrifiquei-me por mim, pelo meu futuro, pelo futuro dos meus filhos (ainda só filha!), por ser alguém. Estive um ano desempregada, separei-me nesse período e estou a reconstruir a minha vida!..."

Acham que fiquei com vontade de dar alguma esmola?

Ass: Abelhinha um pouco revoltada


Posted by Marília Pamies - Cake Designer at 9:46 da tarde

5 Comments

  1. Blogger Agripina Roxo posted at julho 15, 2005 1:47 da manhã  
    acho mesmo que não :( eu não ficaria... é triste vivermos num país onde somos diariamente abordados por pessoas que nos pedem dinheiro... eu já fui muito sensível a essas questões, cheguei a estar envolvida em projectos de distribuição de comida mas um dia acordei e gelei, nunca mais! dias há em que me consigo comover... mas têm de ser muito convincentes, muito mesmo. não deixo de me entristecer, sou é mais racional e egoísta também.

    Um beijinho para a abelhinha-mãe mais doce que eu por este mundo virtual encontro :)
  2. Blogger Caracolinha posted at julho 15, 2005 11:18 da manhã  
    Minha querida abelhina, que bom saber que neste mundo virtual a partilha de experiências nos ajuda a tomar decisões ...

    Acho incrível como é que continua a ser possível que num pais como o nosso se continue a aceitar, e pior, a fomentar, este tipo de comportamento.

    Vou-te contar uma que uma vez me aconteceu: ia eu fresquinha depois de sair de casa da minha mãe e, quando ia a passar junto a uma paragem de autocarro fui abordada por um tipo que teria, no máximo 28 anos, e me disse: de-me ai "qualquer coisinha" (adoro esta expressão) porque eu amanhã tenho que me levantar às 8 da manhã para ir ao centro de recuperação. E eu respondi-lhe: ai tem? pois eu amanhã tenho que me levantar às 7.30 para ir trabalhar para continuar a descontar para você poder seguir a usufruir das suas consultas de graça.

    Juro-te, nem sequer olhei mais para a cara dele. O que me angustia profundamente não é pensar que as pessoas não merecem apoio. Claro que toda a gente merece ser apoiada. Mas o que me revolta verdadeiramente é pensar que se queres gente para fazer certo tipo de trabalhos tipo carpinteiros ou canalizadores tens que esperar meio século porque não há quase ninguém para trabalhar. E estes gajos andam aqui de corpinho bem feito sem fazer nada todo o dia, nem se esforçam. Porque sabem que se não fizerem alguém há-de fazer por eles.

    Pergunto: porque é que continua a haver dinheiro para sustentar coisas destas e não há dinheiro para se ajudar e dar apoio à 3ª idade, constituída, em grande parte, por pessoas que trabalharam uma vida inteira e hoje têm reformas de míseria ????

    Desculpa ter-me esticado no comentário querida abelhinha, mas tudo isto me revolta imenso.

    Obrigada pela menção ao meu texto. Foi bom, muito bom, saber que gostaste.

    Beijo Encaracolado Revoltado ~:o)
  3. Blogger Abelhinha posted at julho 15, 2005 2:41 da tarde  
    Agripina:

    Muito obrigado pelas tuas palavras de carinho!

    Caracolinha:

    Eu é que agradeço que tenhas escrito aquele texto! E no meu blog podes esticar-te à vontade

    Beijinhos enormes às duas
  4. Blogger João Santos posted at julho 15, 2005 6:00 da tarde  
    olá
    Acho o blog sensasional.
    Publicitem-me este blog... please...
    www.musicaparacerimonias.blogspot.com
  5. Blogger SaltaPocinhas posted at julho 17, 2005 1:10 da manhã  
    Fizeste bem em não dar. Se fosse comigo não dava, a menos que lhe pudesse dar mesmo o prato de sopa!

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